quarta-feira, 13 de agosto de 2008

POLÍTICA SEM LADOS

Os processos eleitorais mais recentes, em todo o mundo, podem ser comparados a um cabo de guerra, com tendência a um maior número de mãos puxando o lado esquerdo da corda. No Brasil, enquanto Lula vencia tucanos, entre farpas e manobras sujas de campanha, eram os candidatos a parlamentares da oposição a Bush que já se preparavam para renovar o Legislativo americano pela substituição de seus falcões republicanos.

Daniel Ortega, aos trancos e barrancos, conseguiu recolocar o Partido Sandinista da Libertação Nacional no poder da Nicarágua, mesmo após intervenção da diplomacia ianque em disputa acirrada, cujo resultado manifestou forte preferência popular pelo pensamento esquerdista.

No México, adeptos de Obrero saíram às ruas exigindo a recontagem dos votos que suspeitamente deram vitória ao candidato de direita Calderón nas últimas eleções presidenciais do país.

As centralizações, mais ou menos declaradas, do chavismo e do pestismo e as adaptações de governos esquerdistas, na Hungria e na Bulgária, às exigências capitalistas da União Européia demonstram, de outra parte, que as facções historicamente divergentes, cada vez mais, confudem-se em força única.

Porém, confusão está longe de ser verdade, como demonstra muito bem saber a opinião pública, com a reprovação à Guerra contra o Iraque ou o descarte do discurso demagogo e repetitivo dos alckmistas.

É clara a onda de simpatia pela mudança, em detrimento de reformismo estagnatário. E, enfim, ao que parece, todo povo quer nada além da conciliação do nível de desenvolvimento econômico globalizado a que chegou o mundo com o respeito às diferentes soberanias, de modo a garantir que os direitos humanos conquistados, em teoria, possam sair do papel.

Nesse contexto, é também memorável o resultado do referendo realizado na Bolívia para aprovação dos governos federal e locais de quatro províncias do país. O povo confirmou estar ao lado do líder cocaleiro, com mais de 60% de votos favoráveis a sua manutenção na presidência e, ao mesmo tempo, manteve no poder os governantes de direita de Tarija, Pando, Beni e Santa Cruz, opositores a Evo Morales. Só os dois lados dessa disputa parecem não ter percebido que o povo não tem posicionamento sectário por não querer que a administração pública seja objeto de disputas individuais.

São claros os sinais de que a coletividade está amadurecendo e já na quer tratar a política como competição de criança. Para um governo vitorioso, não deve haver adversários, mas, ao revés, as duas pontas da corda devem ser postas de um mesmo lado. E esse não é nem esquerdo, nem direito, mas aquele onde se acha o bem de todos.

TELEVISÃO DE MUNDO

Outro dia, acompanhei pela televisão a história fictícia de um cientista que perdia o controle sobre as suas criações e passava a ser dominado pelo avanço tecnológico por ele mesmo produzido. De uma hora para outra, as máquinas haviam se tornado mais poderosas que o homem e, em vista disso, ditavam as novas regras da sociedade, como se o feitiço houvesse se voltado contra o feiticeiro.
Exageros da produção cinematográfica à parte, ali de frente à tela, passei a me perguntar sobre até que ponto aquela ficção maluca poderia ser comparada à realidade de nossos dias de modernidade. Afinal, eu estava presa ao encantamento das imagens havia mais de hora e, de fato, o equipamento eletrônico atraía minha atenção, com suas cores e rapidez de informações, de modo que, mesmo acabado o filme, quis assistir à programação que depois viria.

Era a novela que começaria em seguida. Por um instante, fui até a janela e me deparei com o pôr do sol, no centro da tela da mais bela paisagem desenhada pela natureza, e percebi que a maioria das pessoas, àquele instante, não se dava conta de tal vista espetacular, enquanto tinha o olhar fixo em outra tela. E nessa última, por mais que se tivessem os olhos próximos das cenas, o conteúdo era muito distante dos telespectadores, em comparação à beleza do dia que, para ser usufruída, bastava o simples caminhar até a sacada e a inspiração do ar puro vindo de fora. Tudo ao nosso alcance.

Antes das descobertas científicas, nos contentávamos com o contato com os meios de sobrevivência naturais e, assim, vivíamos em equilíbrio com o planeta e com nossos demais conterrâneos, ambos ansiosos por desbravar um território tão misteriosamente grande e, ao mesmo tempo, igualmente pertencente a todos seus habitantes. Os anos se passaram e levaram a antiga satisfação humana diante das repostas mais simples.
Hoje a humanidade se julga no topo da evolução do conhecimento científico e dividimos nossas poucas horas entre uma busca desnorteada por sucesso profissional e o lazer proporcionado por equipamentos elétricos e de informática, obtidos a caros e raros recursos financeiros. Foi assim que, perdidos na procura incessante por mais e mais descobertas decorrentes da ciência, deixamo-nos perder em meio à vaidade intelectual humana e nos esquecemos do verdadeiro foco ou objetivo inicial considerado para a prática de tais pesquisas e estudos.

A princípio, queríamos maior controle sobre os nossos caminhos rumo à segura felicidade. Porém, as informações encontradas não foram aplicadas para o bem geral e, ao contrário, permaneceram na restrição das mentes e bolsos dos detentores do poder sobre as fontes intelectuais e monetárias para a produção científica.
Como se essa deturpação não fosse bastante, o egoísmo da inteligência de poucos ainda dirige com mãos firmes o aproveitamento pela coletividade de parte do conforto moderno cujo acesso foi popularizado. Para manter seus privilégios, a classe dominante da distribuição dos benefícios da modernidade toma para si a exclusividade de decisão sobre o conteúdo a ser veiculado nos meios de comunicação que podem ser utilizados pela maioria das pessoas.

A televisão, em especial, ao invés de expressão do entendimento coletivo e instrumento de formação de uma consciência cidadã, é, antes, arma de manipulação em punho da mídia infestada por interesses individualistas e monopolizadores dos bons frutos da tecnologia e de suas inovações. A opinião pública tornou-se, desse modo, clara manifestação do poder midiático, e a consciência geral parece ter sido substituída pela força maior que a influência do ideal humano de modernidade exerce em nossas vidas.

Será que a imaginação do criador de filmes pessimistas que tratam da evolução do conhecimento humano tem um quê de profecia, e, em realidade, já atualmente, conduzimos nosso existir pelos caminhos definidos pelas máquinas por nós mesmos produzidas? Chego à conclusão de, em parte, as previsões do diretor estarem de acordo com o mundo desequilibrado que observamos. Já não somos parte da tela da vista de fora e, em vez disso, apenas temos as telas de dentro, sem mais saber como ser alguém.

Porém, as mudanças urgentes não são impossíveis, e a volta do poder decisório à real vontade da humanidade depende tão somente do fim da nossa cegueira para o que realmente é importante. Tenho pressa da chegada ao dia em que voltaremos atenção à programação da diversão e da evolução do homem, que será transmitida por nossa própria sabedoria, revelada essa nas possibilidades para uma vida feliz no mundo real, e não apenas na ficção.

ERA UMA VEZ, A ELEIÇÃO

As eleições parecem um grande concurso de histórias fantásticas. Como sempre, quanto mais inacreditavelmente belo é o futuro pintado por um candidato, maior é a facilidade com que ele cai no gosto da população, habituada a se proteger da falta de esperanças e consciência cidadã atrás de grandes ilusões.
Porém, hoje, embora as ladainhas contidas em projetos políticos se repitam com diferentes versões, predomina a falta de crença na possibilidade de um final feliz para qualquer mandato.
Viu-se, só ganha essa disputa quem conta mais dinheiro ou anedotas tendo como principal personagem o povo brasileiro. Os oportunistas do poder tratam os votantes como criancinhas que se podem enganar com contos, sejam esses de réis ou de fadas.
Afinal, sabe-se que as mudanças não se fazem em passe de mágica e exigem tempo e colaboração de toda a sociedade para surtirem efeitos produtivos. Isso, falando-se da dificuldade a ser enfrentada na implantação das melhorias mínimas, sendo que, para a situação calamitosa de miséria e violência presenciadas atualmente no Brasil, deve-se ter o trabalho para um governante eleito triplicado.
Não é estranho que alguém se diga capaz de sozinho, em quatro anos, reverter estragos sociais realizados cumulativamente ao longo de décadas? Penso que já ouvimos histórias mirabolantes demais, inclusive, com figuras que chegam a ser quase mitológicas, tais como os monstros do PCC ou a gang dos mensaleiros e sanguessugas. Usemos, então, esse arsenal de fantasia que nos foi dado para mostrarmos, no próximo pleito, termos crescido o bastante, para não mais crer na existência de super-heróis.
Antes houvesse uma campanha eleitoral que, sem romancear a realidade, afirmasse, o fato de o tão almejado bem comum continuar impraticável, enquanto não for tomado como responsabilidade de todos. É hora de o povo sair da postura de ouvinte da narrativa do país das maravilhas e escrever seu próprio rumo. E, para sair da posição cômoda de tão somente esperar pelo fim desastroso de discursos fundados em milagres paternalistas, só há um começo, o voto.

CALA A BOCA, PROFESSOR!

Professores do Brasil e da Argentina são censurados pelo Poder Público
Brasil mantém Lei da Mordaça

Professores brasileiros têm se organizado para protestar contra uma norma do estado de São Paulo que impede funcionários públicos de se expressarem livremente. Criada na época da Ditadura e até hoje vigente, a chamada “Lei da Mordaça”, Estatuto do Funcionalismo Público Civil paulista traz, em seus artigos 241 e 242, a proibição aos professores e demais servidores públicos estaduais de se manifestarem criticamente por meio da imprensa sobre atos da administração pública e autoridades constituídas.
Como se não bastasse, o Estatuto dos Funcionários Púbicos do Município de São Paulo contém artigo que traz a mesma proibição aos professores municipais. “A permanência de legislação como essa faz perdurar a prática discriminatória, desumana e reprodutora de modelos ultrapassados de alienação e servidão no ensino público”, afirma uma professora pública que, diante do risco de ser legalmente punida, não pôde ser identificada.

A última medida dos professores paulistas contra essa forma de censura foi a participação em audiência pública que aconteceu no dia 27 de março, por iniciativa do deputado estadual de São Paulo Carlos Giannazi (PSOL), para discussão dos dois projetos de lei de sua autoria que buscam alterar o Estatuto do Funcionário Público Civil do Estado de São Paulo.
Estiveram presentes no ato representantes de sindicatos de professores e profissionais da educação, além da Ação Educativa e da ONG Artigo 19, entidades que organizaram, juntamente com a APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), um abaixo-assinado pedindo a revogação das restrições expressas na “Lei da Mordaça”.
O projeto de lei complementar (PLC) 54/07 pede a derrubada do artigo 241 do Estatuto do Funcionalismo Público paulista e, de acordo com informações do site da Ação Educativa, já obteve um parecer contrário do deputado Roque Barbiere (PTB) e outro favorável do relator especial, deputado Rui Falcão (PT), ambos pela Comissão de Constituição e Justiça.
Atualmente, o PLC 54/07 é analisado pela Comissão de Administração Pública da Assembléia Legislativa. Há outro projeto de lei para exclusão da “Lei da Mordaça” em tramitação, proposto pelo deputado estadual Roberto Felício (PT) no final do ano passado.

De acordo com Mariângela Graciano, assessora de comunicação da Ação Educativa, os professores paulistas realizaram um abaixo-assinado e um dossiê da situação, que foram enviados em janeiro último à ONU, à Secretaria Estadual de Educação e, também, ao Ministério Público Estadual. Segundo ela, a reclamação foi transferida ao Ministério Público Federal, que passou a investigar outros casos de leis com conteúdo autoritário parecido, descobertos na regulamentação do funcionalismo público de outros 17 estados brasileiros.
“É preciso liberdade para que a escola seja espaço de negação a qualquer tipo de violência, coerção, distinção, submissão ou passividade”, opina a mesma professora obrigada ao anonimato.
Rômulo Ornelas de Oliveira, que leciona Geografia na Escola Estadual Professora Maria Aparecida Rodrigues do Parque Alvorada, em Guarulhos (SP), conta que sofreu uma ação judicial com base na Lei da Mordaça.
O processo teve início em 2001, sob pedido de supervisores de ensino da instituição, que queriam punição ao professor porque ele havia dito ao jornal Olho Vivo de Guarulhos que a escola se encontrava em estado de abandono. Os autores da ação alegaram que Rômulo desrespeitou sua supervisora e, também, infringiu a lei ao se manifestar por meio da imprensa. O professor foi condenado à suspensão de 15 dias de salários e, após recurso, recuperou tais valores sem a devida correção monetária.
Segundo Rômulo, a supervisão da escola ainda ameaça seus profissionais à perda de cargos caso dêem entrevistas. “Fui punido porque denunciei os problemas da escola. Quando fui entrevistado sobre meu trabalho e falei bem do desempenho da supervisão, não me fizeram qualquer ameaça de punição. A lei da mordaça existe no Governo do Estado de São Paulo, e eu sou sua vítima”, desabafa o professor.

Argentina proíbe professores de falarem com a Imprensa

O Ministério de Educação da Cidade de Buenos Aires sancionou uma resolução destinada aos diretores e professores portenhos, que impede declarações de docentes aos meios de comunicação de massa. A norma determina que todo meio de comunicação que queira fazer uma nota sobre qualquer escola portenha deverá entrar em contato com a assessoria de imprensa para que seja atendido pelo pessoal especializado.

“O governo de Macri cortou um subsídio para a manutenção de nossa escola em seis mil pesos. Desse modo, para qualquer conserto ou limpeza do tanque de água, temos que utilizar dinheiro da cooperadora escolar, que representa fundos próprios. Mas não podemos dizer nada isso abertamente, porque não nos deixam falar”, disse um docente de uma escola de Palermo que preferiu não revelar seu nome, nem o da instituição onde trabalha.

A norma do Ministério portenho também contém um memorando emitido pela Subsecretaria de Inclusão Escolar e Coordenação Pedagógica, que impede os docentes de se ausentarem das escolas para qualquer tipo de reunião: “Conforme o enfoque de gestão adotado por esse Ministério, não serão autorizadas atividades que impliquem em saídas dos docentes e diretores em horário escolar, com exceção daqueles que foram expressamente aprovados pela Direção Geral de Educação de Gestão Estatal, dependente desta Subsecretaria, ainda quando a solicitação venha de outras unidades de Organização dependentes deste Ministério”.

O secretário geral da UTE Capital (Unión de Trabajadores de la Educación), Francisco Nenna, denuncia: “Temos reuniões com jornadas de reflexões entre os docentes e diretores das escolas para tratar a problemática educativa, o planejamento institucional e curricular, bem como trocar opiniões e idéias sobre o trabalho. O memorando determina que os delegados de sindicatos não podem se reunir nem sair dentro do horário de seu trabalho, o que é um direito adquirido pelos sindicatos há mais de 100 anos”.

O subsecretário de Inclusão Escolar e Coordenação Pedagógica, Walter Bouzada Martinez rebate: ”O espírito é fazer com que os meninos estejam o tempo todo com seus professores”. O diretor da escola de Palermo antes mencionada se preocupa com a capacitação docente: “Os, professores que trabalham em turnos de manhã e à tarde dificilmente têm fôlego para seguir seus estudos à noite, fora do horário escolar. Meu temor é que eles deixem de se capacitar”.

O impresso Crítica Argentina publicou nota em que docentes e diretores de uma escola denunciaram o regresso às aulas de um professor com antecedentes de abuso e maltrato físico contra seus alunos. Professores que denunciaram o caso ao referido impresso e deram notas para a América TV “receberam reprimenda por parte do Ministério por terem feito declarações aos meios de comunicação”, segundo Guillermo Parodi, líder da UTE.

Por outro lado, uma iniciativa do Ministério aponta para o caminho da escola democrática e com educação de qualidade. “A cidade educa pelo diálogo” é uma proposta que o Ministro da Educação portenho, Mariano Narodowski, iniciará em breve, segundo comunicado oficial do Ministério, e prevê a promoção de ferramentas de encontro, reconhecimento, aceitação e convivência com o outro, para a resolução de conflitos.
Trata-se de uma série de conversas com as crianças de escolas públicas e privadas da cidade, de todos os níveis educacionais, sobre a recente greve dos grandes produtores argentinos do campo. Um porta-voz da imprensa do Ministério disse que “os alunos debaterão e aprenderão a resolver conflitos na escola, para que não tenham apenas as imagens dos últimos acontecimentos mostradas pela televisão”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O FURO OU FURADA QUE É A VIDA

Verdade divide jovem em duas

Cada passo que dei nesses 23 anos de existência, seria notícia para quem quisesse fazer deles destaque. Já escrevi poesia e conto. Hoje, minha criatividade é do tamanho de um título de primeira página. Minha mudança de estilo talvez fosse nota discreta de um jornaleco local, ou capa da revista mais lida pela situação. A imprensa toda poderia me perseguir pelas ruas, e os repórteres ao meu redor sairiam da coletiva que dei e iriam trabalhar em diferentes tipos de redação (entenda-se, agora, a palavra na sua maior gama de possíveis significados).
No dia seguinte, ou mais tempo depois, minha história já não seria o que Deus, ou eu própria fizera dela. Passariam a existir versões para minha transformação como escritora, das mais diferentes e capazes de atender aos mais opostos gostos. É claro que, em geral, poderia ser observada a predominância de certa tendência opinativa da mídia. “Falta de personalidade na realização da profissão”, estampariam alguns grandes jornais, como que em conluio. Ou, quem sabe, minha decisão de mudar caísse no gosto dos mais poderosos e a manchete então seria: “Bom senso leva autora à objetividade”.
Mais escondidos, atrás de folhetins de fofoca, talvez houvesse alguns impressos auto-intitulados progressistas. Pouco lidos e com fama de subversivos, eu mesma, provavelmente, nem lhes desse atenção quando fosse buscar as notícias sobre mim nas bancas. Naquelas páginas de má qualidade, conquistada com pouco recurso financeiro, eu encontraria um enfoque inesperado para os fatos de que era protagonista. As idéias ali manifestadas se mostrariam mais ou menos carregadas do posicionamento do editor do tal jornal inovador. Não sei se os jornalistas que se julgam alternativos à imprensa gorda falariam bem ou mal de mim.
Mas, de repente, tenho a impressão de que, caso o que eu escrevo merecesse a atenção de tantas pessoas, o embate entre interpretações sobre minha forma de redigir passaria a ser maior que minha intenção pessoal. Vejo-me, como em sonho, a ler tantas opiniões diferentes sobre o que fiz e sou, que chega o momento quando não sei qual verdade é a minha.
Depois de tantas linhas e fotos sobre o mesmo tema, ou seja, a minha vida, resolvi que o melhor caminho era, de fato, demonstrar sentimentos em lead e chorar com o olho da diagramação da reportagem. Atualmente, trabalho numa assessoria de imprensa de grandes sindicatos patronais. Ali, o trabalho é pouco e o dinheiro é muito. As pessoas não fumam e bebem pouco porque transparecem a tranqüilidade da aceitação do mundo como ele é.
Vez ou outra, como não me endureci totalmente, ainda freqüento locais onde os presentes fumam e bebem, sem mais conseguirem ficar bêbados. São os pequenos infernos reservados ao consumo de arte e filosofia rebelde. Quando vou a tais lugares, tenho vontade de tragar. Sinto que não é só o efeito do vício provocado pela nicotina. É, sim, a vontade de me sentir parte daquele grupo que manifesta sua revolta no gesto ansioso e inquieto da auto-destruição a partir do tabaco.
Em meio à fumaça branca e a lucidez negra, é mais fácil continuar vivendo. A viagem narcótica nos transfere para um mundo muito mais colorido, em rápida fuga. Só nesses momentos curtos e ilusórios me sinto próxima da poesia que se perdeu no passado. E, com a volta à mente sóbria, sinto saudades da minha infância farta e ingênua.