Verdade divide jovem em duas
Cada passo que dei nesses 23 anos de existência, seria notícia para quem quisesse fazer deles destaque. Já escrevi poesia e conto. Hoje, minha criatividade é do tamanho de um título de primeira página. Minha mudança de estilo talvez fosse nota discreta de um jornaleco local, ou capa da revista mais lida pela situação. A imprensa toda poderia me perseguir pelas ruas, e os repórteres ao meu redor sairiam da coletiva que dei e iriam trabalhar em diferentes tipos de redação (entenda-se, agora, a palavra na sua maior gama de possíveis significados).
No dia seguinte, ou mais tempo depois, minha história já não seria o que Deus, ou eu própria fizera dela. Passariam a existir versões para minha transformação como escritora, das mais diferentes e capazes de atender aos mais opostos gostos. É claro que, em geral, poderia ser observada a predominância de certa tendência opinativa da mídia. “Falta de personalidade na realização da profissão”, estampariam alguns grandes jornais, como que em conluio. Ou, quem sabe, minha decisão de mudar caísse no gosto dos mais poderosos e a manchete então seria: “Bom senso leva autora à objetividade”.
Mais escondidos, atrás de folhetins de fofoca, talvez houvesse alguns impressos auto-intitulados progressistas. Pouco lidos e com fama de subversivos, eu mesma, provavelmente, nem lhes desse atenção quando fosse buscar as notícias sobre mim nas bancas. Naquelas páginas de má qualidade, conquistada com pouco recurso financeiro, eu encontraria um enfoque inesperado para os fatos de que era protagonista. As idéias ali manifestadas se mostrariam mais ou menos carregadas do posicionamento do editor do tal jornal inovador. Não sei se os jornalistas que se julgam alternativos à imprensa gorda falariam bem ou mal de mim.
Mas, de repente, tenho a impressão de que, caso o que eu escrevo merecesse a atenção de tantas pessoas, o embate entre interpretações sobre minha forma de redigir passaria a ser maior que minha intenção pessoal. Vejo-me, como em sonho, a ler tantas opiniões diferentes sobre o que fiz e sou, que chega o momento quando não sei qual verdade é a minha.
Depois de tantas linhas e fotos sobre o mesmo tema, ou seja, a minha vida, resolvi que o melhor caminho era, de fato, demonstrar sentimentos em lead e chorar com o olho da diagramação da reportagem. Atualmente, trabalho numa assessoria de imprensa de grandes sindicatos patronais. Ali, o trabalho é pouco e o dinheiro é muito. As pessoas não fumam e bebem pouco porque transparecem a tranqüilidade da aceitação do mundo como ele é.
Vez ou outra, como não me endureci totalmente, ainda freqüento locais onde os presentes fumam e bebem, sem mais conseguirem ficar bêbados. São os pequenos infernos reservados ao consumo de arte e filosofia rebelde. Quando vou a tais lugares, tenho vontade de tragar. Sinto que não é só o efeito do vício provocado pela nicotina. É, sim, a vontade de me sentir parte daquele grupo que manifesta sua revolta no gesto ansioso e inquieto da auto-destruição a partir do tabaco.
Em meio à fumaça branca e a lucidez negra, é mais fácil continuar vivendo. A viagem narcótica nos transfere para um mundo muito mais colorido, em rápida fuga. Só nesses momentos curtos e ilusórios me sinto próxima da poesia que se perdeu no passado. E, com a volta à mente sóbria, sinto saudades da minha infância farta e ingênua.
Cada passo que dei nesses 23 anos de existência, seria notícia para quem quisesse fazer deles destaque. Já escrevi poesia e conto. Hoje, minha criatividade é do tamanho de um título de primeira página. Minha mudança de estilo talvez fosse nota discreta de um jornaleco local, ou capa da revista mais lida pela situação. A imprensa toda poderia me perseguir pelas ruas, e os repórteres ao meu redor sairiam da coletiva que dei e iriam trabalhar em diferentes tipos de redação (entenda-se, agora, a palavra na sua maior gama de possíveis significados).
No dia seguinte, ou mais tempo depois, minha história já não seria o que Deus, ou eu própria fizera dela. Passariam a existir versões para minha transformação como escritora, das mais diferentes e capazes de atender aos mais opostos gostos. É claro que, em geral, poderia ser observada a predominância de certa tendência opinativa da mídia. “Falta de personalidade na realização da profissão”, estampariam alguns grandes jornais, como que em conluio. Ou, quem sabe, minha decisão de mudar caísse no gosto dos mais poderosos e a manchete então seria: “Bom senso leva autora à objetividade”.
Mais escondidos, atrás de folhetins de fofoca, talvez houvesse alguns impressos auto-intitulados progressistas. Pouco lidos e com fama de subversivos, eu mesma, provavelmente, nem lhes desse atenção quando fosse buscar as notícias sobre mim nas bancas. Naquelas páginas de má qualidade, conquistada com pouco recurso financeiro, eu encontraria um enfoque inesperado para os fatos de que era protagonista. As idéias ali manifestadas se mostrariam mais ou menos carregadas do posicionamento do editor do tal jornal inovador. Não sei se os jornalistas que se julgam alternativos à imprensa gorda falariam bem ou mal de mim.
Mas, de repente, tenho a impressão de que, caso o que eu escrevo merecesse a atenção de tantas pessoas, o embate entre interpretações sobre minha forma de redigir passaria a ser maior que minha intenção pessoal. Vejo-me, como em sonho, a ler tantas opiniões diferentes sobre o que fiz e sou, que chega o momento quando não sei qual verdade é a minha.
Depois de tantas linhas e fotos sobre o mesmo tema, ou seja, a minha vida, resolvi que o melhor caminho era, de fato, demonstrar sentimentos em lead e chorar com o olho da diagramação da reportagem. Atualmente, trabalho numa assessoria de imprensa de grandes sindicatos patronais. Ali, o trabalho é pouco e o dinheiro é muito. As pessoas não fumam e bebem pouco porque transparecem a tranqüilidade da aceitação do mundo como ele é.
Vez ou outra, como não me endureci totalmente, ainda freqüento locais onde os presentes fumam e bebem, sem mais conseguirem ficar bêbados. São os pequenos infernos reservados ao consumo de arte e filosofia rebelde. Quando vou a tais lugares, tenho vontade de tragar. Sinto que não é só o efeito do vício provocado pela nicotina. É, sim, a vontade de me sentir parte daquele grupo que manifesta sua revolta no gesto ansioso e inquieto da auto-destruição a partir do tabaco.
Em meio à fumaça branca e a lucidez negra, é mais fácil continuar vivendo. A viagem narcótica nos transfere para um mundo muito mais colorido, em rápida fuga. Só nesses momentos curtos e ilusórios me sinto próxima da poesia que se perdeu no passado. E, com a volta à mente sóbria, sinto saudades da minha infância farta e ingênua.
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