Outro dia, acompanhei pela televisão a história fictícia de um cientista que perdia o controle sobre as suas criações e passava a ser dominado pelo avanço tecnológico por ele mesmo produzido. De uma hora para outra, as máquinas haviam se tornado mais poderosas que o homem e, em vista disso, ditavam as novas regras da sociedade, como se o feitiço houvesse se voltado contra o feiticeiro.
Exageros da produção cinematográfica à parte, ali de frente à tela, passei a me perguntar sobre até que ponto aquela ficção maluca poderia ser comparada à realidade de nossos dias de modernidade. Afinal, eu estava presa ao encantamento das imagens havia mais de hora e, de fato, o equipamento eletrônico atraía minha atenção, com suas cores e rapidez de informações, de modo que, mesmo acabado o filme, quis assistir à programação que depois viria.
Era a novela que começaria em seguida. Por um instante, fui até a janela e me deparei com o pôr do sol, no centro da tela da mais bela paisagem desenhada pela natureza, e percebi que a maioria das pessoas, àquele instante, não se dava conta de tal vista espetacular, enquanto tinha o olhar fixo em outra tela. E nessa última, por mais que se tivessem os olhos próximos das cenas, o conteúdo era muito distante dos telespectadores, em comparação à beleza do dia que, para ser usufruída, bastava o simples caminhar até a sacada e a inspiração do ar puro vindo de fora. Tudo ao nosso alcance.
Antes das descobertas científicas, nos contentávamos com o contato com os meios de sobrevivência naturais e, assim, vivíamos em equilíbrio com o planeta e com nossos demais conterrâneos, ambos ansiosos por desbravar um território tão misteriosamente grande e, ao mesmo tempo, igualmente pertencente a todos seus habitantes. Os anos se passaram e levaram a antiga satisfação humana diante das repostas mais simples.
Hoje a humanidade se julga no topo da evolução do conhecimento científico e dividimos nossas poucas horas entre uma busca desnorteada por sucesso profissional e o lazer proporcionado por equipamentos elétricos e de informática, obtidos a caros e raros recursos financeiros. Foi assim que, perdidos na procura incessante por mais e mais descobertas decorrentes da ciência, deixamo-nos perder em meio à vaidade intelectual humana e nos esquecemos do verdadeiro foco ou objetivo inicial considerado para a prática de tais pesquisas e estudos.
A princípio, queríamos maior controle sobre os nossos caminhos rumo à segura felicidade. Porém, as informações encontradas não foram aplicadas para o bem geral e, ao contrário, permaneceram na restrição das mentes e bolsos dos detentores do poder sobre as fontes intelectuais e monetárias para a produção científica.
Como se essa deturpação não fosse bastante, o egoísmo da inteligência de poucos ainda dirige com mãos firmes o aproveitamento pela coletividade de parte do conforto moderno cujo acesso foi popularizado. Para manter seus privilégios, a classe dominante da distribuição dos benefícios da modernidade toma para si a exclusividade de decisão sobre o conteúdo a ser veiculado nos meios de comunicação que podem ser utilizados pela maioria das pessoas.
A televisão, em especial, ao invés de expressão do entendimento coletivo e instrumento de formação de uma consciência cidadã, é, antes, arma de manipulação em punho da mídia infestada por interesses individualistas e monopolizadores dos bons frutos da tecnologia e de suas inovações. A opinião pública tornou-se, desse modo, clara manifestação do poder midiático, e a consciência geral parece ter sido substituída pela força maior que a influência do ideal humano de modernidade exerce em nossas vidas.
Será que a imaginação do criador de filmes pessimistas que tratam da evolução do conhecimento humano tem um quê de profecia, e, em realidade, já atualmente, conduzimos nosso existir pelos caminhos definidos pelas máquinas por nós mesmos produzidas? Chego à conclusão de, em parte, as previsões do diretor estarem de acordo com o mundo desequilibrado que observamos. Já não somos parte da tela da vista de fora e, em vez disso, apenas temos as telas de dentro, sem mais saber como ser alguém.
Porém, as mudanças urgentes não são impossíveis, e a volta do poder decisório à real vontade da humanidade depende tão somente do fim da nossa cegueira para o que realmente é importante. Tenho pressa da chegada ao dia em que voltaremos atenção à programação da diversão e da evolução do homem, que será transmitida por nossa própria sabedoria, revelada essa nas possibilidades para uma vida feliz no mundo real, e não apenas na ficção.
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