segunda-feira, 28 de maio de 2007

PROFISSÃO REPÓRTER

Na Semana de Comemoração de dez anos de existência da Caros Amigos, em abril, houve uma seqüência de palestras com personalidades notáveis que já figuraram nas capas da revista. Na programaçao do dia 14, Caco Barcellos, que já foi destaque em duas diferentes edições da aniversariante, esteve presente no Teatro da Aliança Francesa, localizado à Vila Buarque, região central de São Paulo, para um bate-papo com uma platéia de estudantes e leitores do jornalismo de qualidade. Iniciou sua conversa com o público, fazendo uma análise do contexto em que ocorreram suas duas últimas participações nas publicações da Caros Amigos:

Caco: O momento da segunda capa era de tensão. Foi um mês após a morte de pessoas que tiveram suas histórias contadas no livro Abusado. Inclusive, a última das personagens do livro a morrer foi a Mãe Brava, que faleceu na semana passada.
A primeira capa foi da edição em que eu falava sobre os crimes da PM, na esteira do levantamento que fiz para o livro Rota 66. As coisas não mudaram muito desde então. Antes, os crimes da PM eram julgados em foro especial, ou seja, os coronéis da polícia julgavam crimes praticados por colegas seus. Com o projeto de lei de Hélio Bicudo, as coisas mudaram e os crimes passaram a ser julgados pelo Júri popular. Essa mudança teve um significado muito grande e se demonstrou, inclusive, com a condenação do Coronel Ubiratan a 625 anos de cadeia, resultado histórico. Antes, a maior parte dos policiais militares era absolvida. Outro episódio curioso foi o recurso para anulação da decisão do júri popular, com absolvição do Coronel Ubiratan, por decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo. Porém, os jurados, consultados após isso, confirmaram a condenação do policial por quatro votos a três.
Hoje, outra transformação visível é o fato de os formadores de opinião e pessoas influentes terem passado a manifestar de forma mais clara sua contrariedade à violência contra jovens pobres da periferia feita pelo patrulhamento urbano. E essas situações, infelizmente, têm se repetido em especial no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1997, eu dizia que já não faria o Rota 66 porque, na época, o governador paulista Mário Covas havia determinado que quem matasse pobre deveria deixar o patrulhamento e buscar um analista. De 1400 a 1500 pessoas eram mortas a cada ano no tempo do Rota 66. Depois da ação de Covas mencionada, o número foi reduzido a 280. A decisão do governador teve resistência dos PMs porque, com isso, esses passaram a ser impedidos de fazer seu habitual “bico”. Portanto, a decisão do governo não foi efetiva porque determinava uma mudança de comportamento. Houve apenas resultado temporário da atitude política. Pensei, então, quando lançava o Rota 66, que o melhor seria ter feito a investigação jornalística do livro sobre o BOPE do Rio de Janeiro, que continua, até hoje, a polícia que mais mata (um jovem a cada sete horas morre por suas mãos). Foram perto de 1100 mortes em 2006.
E o pior é que parte da sociedade legitima esse tipo de ação. A posição contrária é a pontual de alguns poucos intelectuais e governantes. Exemplo deles, Luiz Eduardo Soares, secretário-adjunto da Secretaria de Segurança Pública do governo de Garotinho, estabeleceu que o BOPE passasse a ter ação rotineira e realizada pelo patrulhamento de duplas ou quartetos, sem violência arbitrária ou fuzilamento. Esse entendimento levou com sucesso à falência do grupo de drogas do morro, sem mortes, atingindo resultados ao longo de um ano. É triste concluir que esse rumo favorável tenha sofrido nova mudança, com a crise da idéia de polícia democrática e de tratamento igual a todos, devido a inúmeros fatores. Luiz Eduardo Soares foi derrotado em sua candidatura a deputado federal e o ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro que, antes dele, adotara a tática linha dura de atuação da polícia, foi reeleito.

Da minha aparição na 2ª capa da Caros Amigos até agora, chego à constatação de que os matadores do Estado fizeram escola não só no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas também em outros locais. A mentalidade de matança aliada a poder foi transmitida para grupos de criminosos como o Comando Vermelho, ADA, milícias de policiais e ex-policiais, além do PCC. O diálogo com os criminosos é, em decorrência, cada vez mais inviabilizado, e as cadeias são vedadas ao acesso da imprensa. Antes, os “justiceiros” eram enjaulados para que não fossem mortos pela malandragem da cadeia, assim como estupradores e crentes, esses últimos simplesmente porque preferiam o isolamento. Hoje, os justiceiros venceram a ponto de controlar as maiores penitenciárias e os grupos criminosos de dentro de suas celas. No Rio de Janeiro o problema vem dos anos 70, em que imperou o Esquadrão da Morte. Tim Lopes foi morto dessa mesma forma, a partir de métodos de tortura e fuzilamento. A força bruta parece estar dominando cada vez mais nas organizações criminosas. Antigamente, no Comando Vermelho, apenas uma traição muito grave justificaria que o infrator fosse levado ao tribunal e condenado a morte seca. Hoje, o mesmo Comando Vermelho se utiliza de métodos já muito usados por seus adversários, os policiais militares, como a tortura e a brutalidade.

Platéia: Como você acredita que morreu Juliano VP?

Caco: Marcinho VP foi morto por colegas de organização e, provavelmente, outros 50 foram mortos do mesmo modo pelo Comando Vermelho, ou seja, por asfixia realizada com um cordão. A execução desse tipo mais recente foi a de um criminoso em Heliópolis, episódio de tomei conhecimento porque fui contactado por um companheiro da vítima, que me pedia oportunidade para me entregar uma fita de vídeo documentando o ocorrido. O alvo da violência policial era um dos integrantes da quadrilha que planejou o furto de 250 milhões de reais, por meio da construção de um túnel em Fortaleza. O delinqüente foi seqüestrado pela polícia, segundo o vídeo apresentado, e essa pediu 2 milhões de reais em troca da soltura de seu refém. Ocorre, no entanto, que mesmo após ter sido entregue o dinheiro, os policiais continuaram com o criminoso sob seu domínio e quebraram suas pernas. Outros 20 milhões de reais foram entregues como resgate depois do episódio, mas, ainda assim, a vítima não foi liberada do seqüestro. O líder de Heliópolis pedia que eu veiculasse as imagens por ele apresentadas no Jornal Nacional, na tentativa de recuperar o corpo de Fernandinho, criminoso morto. A fita, de fato, apareceu no Jornal Nacional e 3 policiais foram identificados na gravação. Após apenas cerca de 45 minutos, a partir da aparição das imagens, o corpo do delinqüente apareceu.

Platéia: Ao longo de seus trabalhos investigativos, você sofreu muitas ameaças de morte e represálias?

Caco: Fui julgado 18 vezes em 18 ações e tive absolvição em todas. O Rota 66 continua vendendo, mas gastei com minha defesa mais do que ganhei com o livro. Sofri perseguição e ameaça de morte em 1992. Depois disso, continuaram me perseguindo apenas por via da Justiça. Fui processado somente por soldados, os coronéis não se manifestaram. Isso se explica pelo fato que a Justiça isenta os pobres de custas processuais, que costumam ser altas. E esses soldados, estranhamente, tinham até 3 advogados que os defendessem em cada ação. Seriam esses coronéis? Foram identificadas 4200 pessoas mortas por esses policiais, e a alegação deles para terem me movido ações judiciais é a de que meu trabalho investigativo causava danos às imagens deles, inclusive, em sua relação com a própria família e filhos, a quem se teria causado dano superior ao provocado à corporação. Sempre que surgia a proposta para que eu fizesse acordo, recusei. E me mantenho firme em tal posição porque, se fiz o livro, foi com a intenção de que eles parassem de matar. Assim, caso eu cedesse, estaria não só admitindo minha culpa, mas, também, permitindo que meus adversários ganhassem ainda mais dinheiro para comprarem armas e continuarem matando.

Platéia: No recém-noticiado crime praticado contra a criança João Hélio, a população volta a clamar pelo emprego das forças do Exército para reforçar a Segurança Pública das grandes cidades, cuja violência chega ao caos. O que você pensa dessa medida de emergência?

Caco: A idéia de utilizar o Exército para combater a violência pode ser algo bom apenas para fazer com que os oficiais conheçam a realidade das periferias. Porém, caso isso, de fato, seja feito, espero que esses defensores da segurança também não se contaminem pela corrupção, como normalmente acontece com os policiais que atuam na área de tráfico.
No caso do João Hélio, todos temos nossas parcelas de culpa, com a prática de condutas incorretas. O jornalista deve contextualizar as histórias porque têm esse compromisso. Os números de ocorrências de latrocínio e homicídios são misturados para se manipularem os conservadores contra os criminosos. A verdade é que de 3 a, no máximo, 4 é a porcentagem de latrocínios ocorridos dentre as causas de morte no Rio de Janeiro, ou seja, há risco bem maior de morte em outras áreas. Em São Paulo, de um total de 12 mil mortos por ano, 4 % das mortes são praticadas por criminosos. E os outros crimes? Na capital paulistana e no Rio, a polícia é responsável por 20 % das mortes. Os outros 75% não se questionam, sendo que, como resta claro, são uma maioria de mortes causadas por pessoas comuns ao exemplo de nós, que, em desarmonia radical da sociedade, praticam diariamente crimes comuns. O jornalismo sério deve contextualizar o que noticia. Nunca foi tão urgente estabelecer um contexto, na mídia, às barbáries que acontecem e são por ela demonstradas. Documentários com uma história sem contexto podem dar uma visão errada dos fatos e despertar sentimentos de vingança.


Platéia: O que você tem a dizer em resposta às críticas de João Moreira Salles ao trabalho investigativo do livro Abusado, que, segundo ele, pecou e foi anti-ético por ter exposto Juliano VP a ponto de leva-lo à morte?

Caco: Admiro o trabalho de João Moreira Salles, mas não gostei da postura de ele ter ido até a polícia se auto-denunciando por ter prestado ajuda financeira ao traficante Juliano VP, apoiado na idéia de que poderia vir a ser extorquido e chantagiado, por terem descoberto tal relação dele com um criminoso. Na ocasião, ele também relatou aos policiais que eu estava fazendo um livro a partir de apuração no morro. É verdade que, diante da lentidão da polícia, sequer cheguei a ser perseguido em conseqüência da denúncia, porém não gostei da postura do João. A Kátia Lundi diz que não fui ético porque não levei os originais do meu livro a Juliano VP para que ele avaliasse o que poderia ou não ser publicado. No entanto, deixei com ele a transcrição das fitas gravadas que havia feito com suas imagens e depoimentos. Acredito que ele nunca nem tenha lido qualquer página. Não recebi telefonema dele me pedindo que não publicasse algumas partes. Além disso, não prometi a Juliano que lhe entregaria os originais da minha reportagem. Como, então, pode a Kátia saber que levei o VP à morte? Ela tem contato com os assassinos para que tenha essa certeza? Sabe quem são eles, por acaso? Se sabe, de fato, deveria falar. Ela só subiu duas vezes ao morro e tem complexo de classe dominante que se julga a dona do morro. João Salles entregou 9 horas de fita do seu documentário Notícia de uma Guerra Particular ao Secretário de Segurança Pública, segundo afirma Luiz Eduardo Soares no seu livro Casaco de um General. Logo, parece contraditório que ele critique minha conduta e me condene pela repercussão do meu trabalho.

Platéia: É possível manter uma postura favorável à preferia e contrária ao preconceito e a exclusão social de que estão infestados a mídia atual trabalhando na Rede Globo de televisão?

Caco: Tenho que concordar com você quando diz que há pouco espaço para o jornalista manifestar seu pensamento individual nos meios de comunicação. Porém, não acho que esse seja um argumento para que eu desista da minha profissão. De 10 pautas que eu venha a oferecer à Rede Globo, pode ser que eles aceitem apenas 3, porém, isso já representa um avanço que não teria ocorrido, caso eu deixasse de tentar expor minhas idéias. Já cheguei, inclusive, a ter um quadro jornalístico na emissora em que só eram tratados assuntos ligados ao cotidiano das periferias. Desde que o repórter trabalhe, sempre existirá espaço para o mínimo de crítica no jornalismo. A experiência que tenho como profissional é a de que posso fazer meu papel da melhor forma, atuando com liberdade. O jornalista com comprometimento social deve trabalhar, buscando a liberdade, e não a independência, que essa é mesmo difícil de ser alcançada.

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